sexta-feira, outubro 12, 2012

Quando o silêncio responde.


Entendo.

Desconheço os motivos, mas eu entendo. Não que faça muita diferença, agora, entender o que se passou, mas é de nossa natureza tentar solucionar os mistérios do coração, como se todos eles tivessem, efetivamente, uma solução. Acho que isso tudo é fruto dos filmes românticos que costumamos ver, que costumávamos ver. Sem contar as histórias que ouvimos e lemos, todas com os seus respectivos finais felizes. Tolice acreditar que as nossas histórias, como as deles, têm finais felizes. Algumas nem finais têm! Nem mesmo as destes autores, talvez. Buscamos soluções racionais para tentar confortar o coração, nem se tivermos que inventá-las. Mais um episódio da batalha entre razão e emoção.

Sinto mais pela situação em si, pela amizade, companhia e intimidade, apesar do pouco tempo e poucas oportunidades; pela fase que passávamos. Não enquanto dois, mas um e um. E disso tudo que você deixou claro na última vez que estivemos juntos. Tomada por mistério e fria como na maioria das vezes, os sinais daquela noite já traduziam em você qual seria seu desfecho. Conversas breves, superficiais e falidas ocasiões em que se tentava arrancar um sorriso daquele rosto. Dali, a estrada levava a uma direção apenas, e ambos sabíamos qual era, apesar da minha teimosia. Teimosia que, diga-se de passagem, sempre me acompanhou na alegria e na tristeza, até que a morte nos separe. Separamo-nos. Não eu e a teimosia. Você e eu. Afinal, em certos momentos há somente espaço para uma opção.

 O curto tempo ressalta a dúvida de se ter começado pelo fim ou terminado pelo começo, mas isso também não importa e, uma vez mais, será insolúvel até o final de nossas vidas. Foi o silêncio destas últimas duas semanas (agora sim, duas semanas) que me deu as respostas. O silêncio responde. São dessas situações que a gente aprende na vida. Não dá pra ser diferente.

Posso oferecer-lhe a partir de agora a amizade-de-qualquer-hora e o desejo para que continue sendo feliz e com esse sorriso largo no rosto, como foi desde o dia que te conheci. Só não se esqueça de viver leve. Para o que precisar, estarei aqui.

sexta-feira, outubro 15, 2010

Peça: A Realidade de um Sonho

Primeiro Ato. Abrem-se as cortinas.
Cenário aparentemente simples, mas repleto de informações. A cena inicial se dá em uma praia nunca antes vista. É noite. Poucas personagens, sendo que boa parte delas faz apenas figuração caminhando de um lado para o outro ou amontoadas em grupos, visivelmente perdidas ou atordoadas.
Há somente um foco de iluminação pública fielmente representada, que ora apaga e ora acende delatando sua forte degradação. No entanto, este mesmo foco abrange pouco mais da metade do cenário.
Duas pessoas caminham em direção ao centro do cenário visando a claridade. Conversam e se camuflam facilmente diante dos demais componentes da cena por seus comportamentos aleatórios e descoordenados. Andam e falam coisas incompreensíveis até que um deles, a personagem masculina, esbraveja receosa:

- Vem, vamos sair dessa escuridão. Você sabe que não é a decisão mais prudente ficar por aqui com toda essa gente.

A mulher que o acompanha logo rebate:

- Esse não é o problema. Você não tem medo da escuridão. [pausa] A escuridão está aqui [apontando para o peito de seu parceiro de cena]. [Pausa longa] Eu não agüento mais - desabafa e tão logo abaixa a cabeça.

Eis que então rola uma lágrima no rosto da pobre senhora que certamente sofre calada. Mal deixa percorrer os sulcos de sua face, ergue o braço esquerdo com a intenção de interromper o percurso do pingo que surgira de seu olho.

Diante daquela situação, o homem indaga:

- Mas se você, a minha fortaleza, for embora, onde eu vou me escorar?

Agora que se tornou explícito que se trata de mãe e filho, o último mira o horizonte tentando encontrar alguma resposta oportuna que venha de encontro aos seus problemas nada usuais, mas que acabaram se tornando corriqueiros. Obviamente, como todas as outras ocasiões como esta, a solução não vem nagegando e o nosso ator volta o olhar à sua mãe novamente.
Fim do primeiro ato. Fecham-se as cortinas.

Segundo e último ato. As cortinas tornam a se abrir.
Neta cena, os protagonistas (ou antagonistas, ainda não se sabe) estão sentados em um banco próximo à areia e permanecem calados com suas cabeças voltadas para frente, além de seus olhos fixos contra a maresia.
O ato acontece cerca de duas horas depois, tempo fictício. A não ser pelos agora coadjuvantes que continuam a vagar sem destino, o cenário se assemelha a uma fotografia melancólica e cinzenta, obra de algum profissional frustrado e que tenta encontrar caminhos à beira mar.
Mais uma vez no centro das atenções, mãe e filho parecem estar desencorajados a fitar um os olhos do outro. Algo parecido com vergonha ou desprezo, não se sabe ainda dizer. Até que finalmente a mãe desolada inclina-se na direção do filho como símbolo de uma definitiva inversão de papéis, descansa sua cabeça no ombro do herdeiro e enche seus pulmões de esperança.

Cansada, arrasta palavras:

- Sabe, meu filho ... a realidade é que estou farta das pessoas que dizem que preferem se arrepender do que fizeram ao que não fizeram, mas vivem pedindo perdão.

Em definitivo, as luzes vão sendo escurecidas e fecham-se as cortinas para nunca mais serem abertas, à medida em que os olhos vão despertando por conta da luz do dia que já bate à janela.

terça-feira, setembro 28, 2010

É amor?

- Só sei que nós nos amamos muito…

- Porque você está usando o verbo no presente? Você ainda me ama?

- Não, eu falei no passado!

- Curioso né? É a mesma conjugação.

- Que língua doida! Quer dizer que NÓS estamos condenados a amar para sempre?

- E não é o que acontece? Digo, nosso amor nunca acaba, o que acaba são as relações…

- Pensar assim me assusta.

- Porque? Você acha isso ruim?

- É que nessas coisas de amor eu sempre dôo demais…

- Você usou o verbo ‘doer’ ou ‘doar’?

- (Pausa) Pois é, também dá no mesmo…

Gian Fabra

segunda-feira, abril 26, 2010

A visão além das quatro paredes

Tenho pra mim que o sexo, propriamente dito, é um rústico sinal de que viemos mesmo do mundo animal. Algo para não perdermos a referência das origens.

É ignorância, contudo, excluir a idéia humanista deste tipo de relação da qual defende que com o sexo as pessoas realmente se aproximam com o que são, sem hipocrisia e outras barreiras ainda não aceitas socialmente.

O prazer é um catalisador da felicidade e do ego humano, afinal.

E é por conta desse preconceito supracitado que as pessoas só conhecem o que e quem são quando estão no auge de um orgasmo. Este papo de fingimento já não pode ser cabível quando tratamos da atual sociedade. Não tem orgasmo quem não foca a cabeça (e os esforços) no que está fazendo. Quem se apega muito ao que está la fora e não ao que acontece entre as quatro paredes.

A bem da verdade, muita gente não sabe o que é sexo, não sabe o que é fazer sexo. Quero deixar claro aqui que não sou uma enciclopédia desta arte chamada "sexo". Posso perfeitamente me incluir nessa lista de quem não sabe o que é sexo. Mas, de uma coisa eu tenho certeza: sei mais sobre sexo do que sobre amor. E seria o cúmulo da incapacidade não poder descobrir sozinho o que é o amor!

quarta-feira, agosto 12, 2009

Boa semana, amor.

Mais uma segunda-feira ensolarada que finda dois dias de descanso.
Não há motivos para preocupar-se com o relógio, já que costuma desenhar sua própria vida. Abre os olhos não tão rápido como batem as asas do beija-flor que beira a sua janela para desejar-lhe um bom dia, mas não tão vagarosamente como abrem os botões das folhes de seu jardim. Aproveita cada segundo entre os lençóis de sua cama como se realmente fosse o último e recebe o abraço matinal de seu fiel travesseiro.
São 9 da manhã, uma lacuna em sua cama e em seu peito. Lembra-se que não fora deitar-se sozinho, bem como tinha certeza que esteve envolto em macios braços femininos antes de se entregar ao sono. Ao seu lado ficaram as marcas de quem passou a noite o seu lado, o calor de quem acabou de sair e a frieza de quem deixara-lhe sem um beijo sequer.
Chegara a hora do café-da-manhá porque não se vive só de amor - apesar de ser esta a obesessão do nosso herói. Veste seu roupão, calça os chinelos e desce as escadas. Chega à mesa e tem a grata surpresa de que a mesma já estava pronta como se alguém tivesse a intenção de lhe agradar: suco de laranja, pão torrado, margarina, leite aquecido e frutas frescas. Afastou a cadeira e sentou-se com a postura que sentaria um Monarca no período da Idade Moderna. Porém, ao invés de um trono de mármore com detalhes em ouro e um manto avermelhado, tinha que se contentar com o que havia a sua vista. Somente uma cadeira branca, apenas dita "moderna", que havia sido parcelada em 12x e o seu roupão, este sim vermelho, que um dia fora novo.
Havia também um botão de rosa no centro da mesa redonda e uma mancha de batom na toalha. Ambos tão vermelhos quanto o sangue que, efervescente, circulava por suas veias. Não tinha reparado numa carta que estava ao lado do segundo copo com um resto de suco. Fez a sua primeira refeição do dia sem dizer uma palavra. Ignorou o noticiário da manhã como quem não se importa com mais nada e recusou-se a abrir o jornal que lá estava, como todos os dias, na bancada de sua cozinha.
Seu corpo pedia-lhe desde que levantara um quente e bom banho para livrar-se do que teria sido o seu final de semana. Chegou a hora de atender ao seu pedido. Dirigiu-se ao banheiro e ao mirar o espelho a fim de medir o quanto necessitava fazer a barba, deparou-se com um recado escrito com os finos e delicados dedos de sua parceira no vapor do último banho: Boa semana, amor.
Estava convicto que esta semana esta não teria prazo para terminar.

quinta-feira, abril 09, 2009

segunda-feira, julho 07, 2008

Tendendo a pedidos

Dentre os mais devassos sente-se como um mero e ímpar herói apoiado com pernas de quem não consegue mais suportar incessantes tentativas de manter-se de pé, sem muita fé no futuro e muito menos fidelidade com si próprio, afinal tornara-se mais uma vez incapaz de encarar a si mesmo seja nos olhares teus ou nas correntes águas que se vão.
Caminha de braços dados à Esperança, uma vez que esta será sua única companheira frente aos árduos desafios que ainda lhe restam e, cá entre nós, não lhe caberia melhor aliada, tendo em vista que a esta, mesmo descrente, será a última a ceder.
Admira o longo caminho que lhe resta com o ilusório sentimento de dever comprido ao mirar seu honroso passado disseminando aos quatro ventos repetidas vezes sua vontade de não mudar ao menos uma frase ou um olhar sequer. Sorri tristemente ao lembrar o que já teve nos braços, fazendo-a reviver em seu peito em um momento inoportudo de falsa felicidade, que logo se vai sem dizer adeus e deixa apenas a imagem de seu fracasso ao tentar com todas as suas forças trazê-la para si, mas vê-la fechando os olhos com o ar da mais pura inocência que alguém ja imaginou ter. A impossibilidade toma-lhe por um momento eterno e ata-lhe as mãos. Não há pior castigo que saber remediar, mas não o poder fazer; saber do erro, mas não lhe restarem mais tentativas. A vida, então, escapa-lhe aos dedos e se esvai sem prenunciar seu caminho. Apresento-lhes a primeira gota d´agua que escorre pelo rosto deste humilde herói: foge dos olhos como quem não ousaria ficar, rola o extenso caminho de sua pele e chega até os sulcos de seus lábios, os mesmos que já se arriscaram por uma intensa paixão e, por isso, tocaram o céu.

Contudo, aqui fracassos não significam o fim. Trata-se de motivos para querer mais, almejar mais, buscar o que tanto seu coração lhe pede e voar em direção ao esplendor. Todo o segundo, seja ele qual for, é uma outra chance para apostar sua felicidade. Ora, o que somos se não retratos de nossas cicatrizes?
Resta erguer-se e mirar o horizonte.
A primavera se aproxima e, com toda a certeza, a flor que busca estará a postos para abrir-se dotada de toda aquela exuberância inconfundível. Já consegue sentir seu perfume, fato que o anima a cada passo por saber que não será um passo a mais na sua épica luta, e sim um a menos para o grande encontro. Não pode enganar-se quanto à sua beleza, afinal é possível ver suas radiantes pétalas ofuscarem o sol.
Não ve a hora de sentir-lhe e sentir pulsar novamente.