sexta-feira, outubro 15, 2010

Peça: A Realidade de um Sonho

Primeiro Ato. Abrem-se as cortinas.
Cenário aparentemente simples, mas repleto de informações. A cena inicial se dá em uma praia nunca antes vista. É noite. Poucas personagens, sendo que boa parte delas faz apenas figuração caminhando de um lado para o outro ou amontoadas em grupos, visivelmente perdidas ou atordoadas.
Há somente um foco de iluminação pública fielmente representada, que ora apaga e ora acende delatando sua forte degradação. No entanto, este mesmo foco abrange pouco mais da metade do cenário.
Duas pessoas caminham em direção ao centro do cenário visando a claridade. Conversam e se camuflam facilmente diante dos demais componentes da cena por seus comportamentos aleatórios e descoordenados. Andam e falam coisas incompreensíveis até que um deles, a personagem masculina, esbraveja receosa:

- Vem, vamos sair dessa escuridão. Você sabe que não é a decisão mais prudente ficar por aqui com toda essa gente.

A mulher que o acompanha logo rebate:

- Esse não é o problema. Você não tem medo da escuridão. [pausa] A escuridão está aqui [apontando para o peito de seu parceiro de cena]. [Pausa longa] Eu não agüento mais - desabafa e tão logo abaixa a cabeça.

Eis que então rola uma lágrima no rosto da pobre senhora que certamente sofre calada. Mal deixa percorrer os sulcos de sua face, ergue o braço esquerdo com a intenção de interromper o percurso do pingo que surgira de seu olho.

Diante daquela situação, o homem indaga:

- Mas se você, a minha fortaleza, for embora, onde eu vou me escorar?

Agora que se tornou explícito que se trata de mãe e filho, o último mira o horizonte tentando encontrar alguma resposta oportuna que venha de encontro aos seus problemas nada usuais, mas que acabaram se tornando corriqueiros. Obviamente, como todas as outras ocasiões como esta, a solução não vem nagegando e o nosso ator volta o olhar à sua mãe novamente.
Fim do primeiro ato. Fecham-se as cortinas.

Segundo e último ato. As cortinas tornam a se abrir.
Neta cena, os protagonistas (ou antagonistas, ainda não se sabe) estão sentados em um banco próximo à areia e permanecem calados com suas cabeças voltadas para frente, além de seus olhos fixos contra a maresia.
O ato acontece cerca de duas horas depois, tempo fictício. A não ser pelos agora coadjuvantes que continuam a vagar sem destino, o cenário se assemelha a uma fotografia melancólica e cinzenta, obra de algum profissional frustrado e que tenta encontrar caminhos à beira mar.
Mais uma vez no centro das atenções, mãe e filho parecem estar desencorajados a fitar um os olhos do outro. Algo parecido com vergonha ou desprezo, não se sabe ainda dizer. Até que finalmente a mãe desolada inclina-se na direção do filho como símbolo de uma definitiva inversão de papéis, descansa sua cabeça no ombro do herdeiro e enche seus pulmões de esperança.

Cansada, arrasta palavras:

- Sabe, meu filho ... a realidade é que estou farta das pessoas que dizem que preferem se arrepender do que fizeram ao que não fizeram, mas vivem pedindo perdão.

Em definitivo, as luzes vão sendo escurecidas e fecham-se as cortinas para nunca mais serem abertas, à medida em que os olhos vão despertando por conta da luz do dia que já bate à janela.

Um comentário:

Unknown disse...

Não sei o motivo ao certo porque gostei, na verdade, são inúmeros... Há realidade acima de tudo, conhecida como surreal, quando o onírico se vê livre pra falar... há identidade e correspondência... como uma fotografia contemporânia, você conseguiu exprimir muito em tão poucas linhas... parabéns, suas entrelinhas estão repletas de clamores pela vontade de vencer... parabéns meu velho amigo, gostei muito... eu encenaria... ou melhor, acho que já encenei...